Demências: muito além do Alzheimer — entendendo os tipos e o papel da avaliação neuropsicológica no diagnóstico
- Neuropsicóloga Heloisa Sarquis Guelfi
- 27 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de jan.

Quando percebemos que um familiar está esquecendo coisas importantes, repetindo perguntas ou mudando o jeito de agir, é comum a primeira reação ser: “Será Alzheimer?”
Esse pensamento é natural — afinal, é o tipo de demência mais conhecido. Mas a verdade é que o cérebro pode adoecer de diferentes maneiras, e existem vários quadros demenciais, cada um com sinais, causas e tratamentos específicos.
Entender essas diferenças é essencial para evitar diagnósticos equivocados, reduzir angústias e, principalmente, buscar o cuidado mais adequado o quanto antes. Hoje vamos conversar sobre isso com clareza, acolhimento e informação confiável.
O que é demência?
A demência não é uma doença única, mas sim um conjunto de sintomas que afetam funções cognitivas, como memória, atenção, concentração, linguagem, raciocínio e tomada de decisões, percepção do ambiente, comportamento e emoções.
Esses sintomas precisam ser progressivos (ou seja, piorar ao longo do tempo) e interferir de forma significativa na rotina da pessoa para que o quadro seja considerado demencial.
Os principais tipos de quadros demenciais: 1. Doença de Alzheimer
É o mais comum;
Começa frequentemente com perda de memória recente;
Evolui para dificuldades de linguagem, desorientação e prejuízo nas atividades do dia a dia.
2. Demência Vascular
Causada por lesões decorrentes de pequenos ou grandes derrames;
Pode surgir de forma mais súbita ou em “degraus” (a pessoa piora, estabiliza, depois piora de novo);
Sinais comuns: lentidão de pensamento, dificuldade de planejamento e alterações motoras.
3. Demência com Corpos de Lewy
Presença de alucinações visuais (como ver pessoas ou animais que não estão ali);
Flutuação cognitiva (dias muito bons e outros muito confusos);
Alterações do sono e sintomas parecidos com Parkinson, como rigidez e tremor.
4. Demência Frontotemporal
Geralmente começa por mudanças comportamentais, e não pela memória;
Exemplos práticos: perda de filtro social, impulsividade, apatia, desinibição ou compulsões alimentares;
Mais comum em pessoas mais jovens (entre 50 e 65 anos), mas também pode ocorrer em idosos.
5. Demência associada à Doença de Parkinson
Ocorre em pessoas já diagnosticadas com Parkinson;
O comprometimento cognitivo aparece após anos de evolução motora;
Pode haver lentidão cognitiva, dificuldade de atenção e prejuízos visuoespaciais.
Percebe como cada tipo tem uma forma diferente de começar?
É por isso que nem toda demência é Alzheimer, e nem todo esquecimento significa demência.
Como o diagnóstico de demência é feito?
O diagnóstico é multidisciplinar e inclui a combinação de diferentes avaliações:
1. Consulta médica (Neurologista ou Geriatra)
Investigação clínica;
Exame físico e análise do histórico de sintomas;
Solicitação de exames complementares.
2. Exames de neuroimagem
Como ressonância magnética ou tomografia;
Avaliam se há atrofias, lesões vasculares ou outros marcadores cerebrais.
3. Exames laboratoriais
Para descartar causas que podem imitar demência, como deficiência de vitaminas, alterações da tireoide, infecções, entre outras.
4. Avaliação Neuropsicológica
É aqui que a neuropsicologia faz toda a diferença.
A avaliação neuropsicológica é um exame detalhado das funções cognitivas, feito por psicólogos especialistas, que permite:
identificar quais habilidades estão mais prejudicadas e quais estão preservadas;
diferenciar quadros que podem parecer semelhantes clinicamente;
avaliar o impacto real das alterações na rotina;
auxiliar o médico a fechar o diagnóstico com mais precisão;
orientar a família sobre manejo, segurança e intervenções.
Exemplo prático:
Uma pessoa que tem esquecimentos, mas mantém linguagem, raciocínio e independência preservados, pode não estar em um quadro demencial. Já alguém com memória estável, mas com mudanças de comportamento importantes, pode estar em uma demência frontotemporal, não em Alzheimer.
A avaliação neuropsicológica ajuda exatamente a fazer essas distinções, trazendo mais segurança ao processo diagnóstico.
Conclusão
Receber ou suspeitar de um diagnóstico de demência é um momento delicado. Mas quanto mais informação e clareza houver no caminho, mais possibilidades de cuidado, adaptação e qualidade de vida se abrem para o paciente e sua família.
Se você:
percebe sinais cognitivos ou comportamentais em alguém que ama;
sente insegurança sobre o que está acontecendo;
ou quer uma avaliação especializada para orientar próximos passos;
Dicas práticas para famílias
Observe quando os sintomas começaram e como estão evoluindo;
Note se há flutuação (dias melhores e piores) ou piora súbita;
Registre mudanças de comportamento, sono, fala e humor;
Não espere tudo ser esquecimento — o início pode ser diferente;
Procure avaliação médica e neuropsicológica especializada.
Lembre-se: buscar ajuda é um ato de cuidado, não de confirmação de medo. Se você quiser saber mais, tirar dúvidas, ou agendar uma avaliação, estou à disposição para te ajudar.
